quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Relato de Viagem: Uma aventura boreal, por Pierre Gontijo*


Esta foi mais do que uma viagem. Foi de forma inequívoca, uma aventura. Digo isso por que foram diversos vôos, escalas, passeios, comidas exóticas... Tudo em busca dela: a Aurora Boreal. A Aurora não é meramente um fenômeno óptico composto de brilhos observáveis nos céus noturnos nas regiões polares, decorrentes do impacto de partículas de vento solar e a poeira espacial encontrada na via láctea com a alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético terrestre. Não mesmo. É um desfile de luzes (onde prepondera o verde). Digo desfile, pois ela fica, literalmente, dançando no céu.

A viagem é longa... Em termos de distância, é a quase que ir do Rio de Janeiro para Nova Zelândia. Mas vale muito a pena. Primeiro, um vôo de onze horas até Paris, depois mais três horas até Oslo. Por fim mais duas horas até o extremo norte da Escandinávia. Tromsø, o destino final, é a maior cidade da Lapônia e do norte da Escandinávia. Muitas pessoas acham que a Lapônia é apenas o norte da Finlândia, mas, na verdade, compreende todas as regiões ao norte do circulo polar da Noruega, Finlândia e Suécia.

Tromsø está a 400 km ao norte do círculo polar ártico, a 69 graus de latitude, o que equivale geograficamente ao extremo norte do Alaska, norte da Sibéria, da Finlândia e acima do extremo da Suécia. É uma cidade pequena, mas cosmopolita e estruturada. Possui 70 mil habitantes, sendo que dez mil deles são estudantes de uma grande universidade. Sendo assim, suas ruas são repletas de jovens, pubs, bares, shoppings, museus e tudo que existe em uma grande cidade.

Tromsø é uma cidade litorânea, e por este motivo não possui frio extremo, mesmo estando tão ao norte no globo como as regiões equivalentes do Alaska, Finlândia e Sibéria. A corrente de água quente proveniente do golfo do México banha o litoral da Noruega, “esquentando” a terra e deixando o clima mais ameno. Basta pegarmos uma estrada para o interior, em direção à Finlândia, que a temperatura despenca depois de algumas dezenas de quilômetros.

O litoral da Noruega é montanhoso, todo recortado por montanhas e fiordes (braços do mar que percorrem o interior da terra) fazendo com que o país tenha uma das mais belas paisagens do mundo. A cidade de Tromsø é uma grande ilha no meio de um fiorde, possuindo duas pontes que a ligam ao continente.

Ficamos seis dias em Tromsø. Durante o dia, nada de muito interessante para se fazer. A grande expectativa era para a chegada da noite. Saíamos em pequenas viagens em busca da aurora boreal. Dependendo da meteorologia de cada dia, buscávamos o melhor destino pré-estabelecido para nossa caçada. O fundamental é fugir da cobertura de nuvens e luzes artificiais que atrapalham a visão.
  
Além do céu aberto, para ver a aurora precisamos também de uma boa radiação magnética. A cada dia, a radiação varia, podendo estar muito forte ou fraca, oscilando em uma escala que vai de 1 a 10. Tivemos sorte de o mês de setembro ter sido de equinócio, para muitos a melhor época para se ver a aurora. Além disso, estávamos em ano do pico do ciclo solar, o que indica uma grande possibilidade de desfrutarmos das luzes do norte.

Das seis noites que passamos por lá, pudemos ver a aurora em três. A primeira vez foi à beira de um lago, com o grupo todo extremamente ansioso para vê-la. Também nos fazia companhia uma garrafa de Absolut Grapevine para nos proteger do frio. Quando ela surgiu, foi uma beleza, pois o céu estava estrelado, um pouco nublado, mas junto com o ar frio, formou um cenário bastante exótico.

Entretanto, o ponto alto da viagem foi um passeio até uma cidadela finlandesa chamada Kilpisjärvi. Uma road trip maravilhosa de cerca de duzentos quilômetros. Neste passeio de um dia inteiro, pudemos percorrer a mais bela cadeia de montanha da Noruega, as montanhas Lyngen, entre fiordes. Por fim, subimos o planalto da Finlândia. Vegetação, construções, lagos. Na fronteira entre a Noruega e a Finlândia, algumas renas atravessaram a estrada e posaram para fotos. Outras foram parte de nossa refeição!

Quando caiu a noite, testemunhamos a mais bela de todas as auroras. Você senta, espera anoitecer, e o céu começa a ganhar outras cores. À medida que a noite avança, as cores ficam mais intensas e começam a passear pelo céu. Como a radiação estava forte (atingindo o nível nove), fomos agraciados com um céu verde, lilás, roxo e outros tons amarelados. De tanto tirar fotos, as baterias das máquinas fotográficas esgotaram-se. Foi quando aconteceu o maior momento de toda a viagem. Na mesma fronteira onde renas pastavam, agora havia a aurora boreal. Só que muito mais forte, e ao som de Mozart. Um momento indescritível. Não só pela beleza, mas por todo um conjunto: frio (cerca de oito graus negativos), o céu em cores e a música clássica.

Depois, fomos para a Ilha de Svalbard, onde passamos três noites: o destino mais ao norte do Planeta Terra. Não podemos dizer que Svalbard seja propriamente parte da Noruega, sendo na verdade uma terra de ninguém administrada pela Noruega, assim como a Groelândia é administrada pela Dinamarca. Quarenta países assinaram um tratado para explorar a ilha, mas a lei local fica a cargo da Noruega. Na época do carvão, existiram diversas cidadelas na região. Hoje, são apenas três povoados habitados. Longyearbyen, Barentzburg (uma colônia totalmente russa e sem acesso por terra) e o isolado vilarejo de Ny Alesund, este habitado por pouco mais de trinta cientistas.

Fizemos um passeio de barco, interessantíssimo, pelo oceano (o que só possível em setembro por causa do gelo), até uma antiga vila russa, Pyramiden, totalmente desabitada e abandonada, como uma cidade fantasma. Lá foi possível observar casas e objetos que, até hoje, se encontram do jeito foram deixados. Vimos muitas geleiras. A maior delas, Olav Lund é do tamanho do estado da Paraíba. A água refletia no gelo, surgindo um azul lindíssimo. Experimentamos churrasco de carne de baleia, comida típica local, no deck do barco. Lembra bife de fígado com maresia...
  
A geografia de Svalbard surpreende a todos. No mês de setembro, sem neve, pode-se ver a vegetação típica da região, a tundra, que se caracteriza pela ausência de arvores e pelo fato de que o solo permanecer sempre congelado. Escalamos uma rocha de 500m, o Monte Sarcofagum. Lá no alto, começou a nevar. De lá, voltamos para Oslo, onde pernoitamos (cidade bonita, mas sem grandes atrativos turísticos). Voltamos para Paris (onde passamos tarde/noite e fizemos uma caminhada pelos principais pontos turísticos) e de lá retornamos para o Rio de Janeiro.

Algumas dicas e considerações para quem se interessar em fazer essa viagem:

  • Noruega é cara e Oslo é hoje a cidade mais cara do Mundo. Logo, não é uma viagem de compras, exceto nos free-shops. Curiosamente, o de Oslo é mais barato que o de Paris, e é muito bom; 
  • Durante a viagem, eu utilizei o Visa Travel Money. Gostei muito e recomendo; 
  • Apesar de a Noruega ser muito cara, as roupas de frio têm preços bons. Deixe para comprar lá; e, 
  • Encontramos um grupo de brasileiros que ficou cinco dias lá e não conseguiu ver Aurora Boreal. Existem guias que têm certificação de “Nothern Lights Chaser”. Viajei com um deles, o Daniel Japor, que tem uma agência especializada neste tipo de viagem, chamada Geotrip

* Pierre Gontijo é um viajante e colunista convidado do Cruzando Fronteiras

Um comentário:

  1. Só deu muita vontade de ir, enrolada no edredom, claro...

    Lindííííssimas as fotos!

    Anivia


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