domingo, 9 de setembro de 2012

Relato de Viagem, Suazilândia: Um pobre e pequeno reino no coração da África do Sul


Ao cruzar a simples e rústica fronteira que divide a África do Sul e a Suazilândia, não tinha muita expectativa do que iria encontrar por lá. Havia partido pela manhã da cidade de Santa Lucia, na costa do Oceano Índico, e seguia para o norte, em direção ao Kruger. Minha visita à Suazilândia seria rápida, cruzando o país de norte a sul em pouco mais de algumas horas na estrada. A travessia era de apenas 200 km, mas como ingressei no país um pouco tarde, seria necessário pernoitar em algum local próximo à capital administrativa, Mbabane, antes de retornar à África do Sul e ingressar no Parque Nacional do Kruger.

A Suazilândia é um país muito pequeno, sem acesso ao mar, e praticamente incrustado dentro da vizinha África do Sul, com a qual faz fronteira ao sul, norte e oeste. Tendo conseguido sua independência da Inglaterra em 1968, o país se manteve, desde então, bastante dependente economicamente da sua vizinha. O Rand sul-africano é aceito como moeda local, apesar da existência de uma moeda suázi, chamada Lilangeni.

O processo burocrático na fronteira foi rápido e bastante tranquilo. Com a autorização prévia da locadora, não tive problemas com o meu carro, e não é necessário visto de turismo para cidadãos brasileiros. Apresentei os documentos do veículo, juntamente com o passaporte, paguei uma taxa e logo segui viagem.

As estradas da Suazilândia estão em boas condições (surpreendentemente), e a sinalização é adequada, apesar de um pouco escassa. Não havia muitos carros naquele início de tarde, e pude seguir rumo ao norte, apreciando a paisagem rural e dirigindo despreocupadamente. A paisagem era verde e a vegetação rasteira. Pequenos morros e colinas cobriam o horizonte, pontilhados por pequenas cabanas redondas, com suas paredes de barro e telhados de palha. Algumas montanhas ao fundo e um céu azul, parcialmente nublado, compunham um belo cenário de verão africano.

Apesar de ser um país pequeno, a Suazilândia não é densamente habitada. Cruzando de norte a sul seu território, não observei grandes aglomerados urbanos, e mesmo a capital é uma cidade muito pequena, sem edifícios altos ou tráfego congestionado. Na maior parte do tempo, dirigia por estradas vazias e margeava tribos e vilarejos, sempre caracterizados pelas construções típicas e pela pequena agricultura de subsistência.

Ao longo do trajeto, era possível ler, em inglês e em suázi, alguns cartazes com slogans e frases relacionadas à AIDS e sua prevenção. A população da Suazilândia é bastante pobre, com 60% dos seus habitantes vivendo com menos de US$ 1,25 por dia. Além disso, a AIDS é uma ameaça séria ao país, com uma taxa de infecção de 26% nos adultos e de mais de 50% nos jovens de 20 a 30 anos. O resultado é uma expectativa de vida de menos de 40 anos, uma das menos do mundo. Um dos cartazes na beira da estrada dizia: “Dizer não para o sexo com um homem mais velho não significa que você seja desrespeitosa”.

Crianças, sozinhas ou em grupo, caminhavam lentamente na beira da estrada, em direção à escola. Mulheres carregando bebês nas costas, presos em seus panos coloridos, percorriam longas distâncias.

Já estava me aproximando na capital, quando surgiu ao longo da estrada um policial, fardado, sinalizando para que parasse. Um pouco surpreso e assustado, obedeci. Em um inglês quase ininteligível, o guarda rodoviário solicitou meus documentos e passaporte. Entreguei os papéis e, após uma rápida conferida, ele prosseguiu afirmando que eu havia ultrapassado o limite de velocidade. Certo de que não havia cometido essa infração, tentei argumentar, mas o policial não quis conversa e levantou a voz, afirmando que tinha detectado a minha velocidade em um radar. Desisti de argumentar e ele seguiu no seu discurso, afirmando que teria que me multar. Assustado, perguntei o valor. Ele me respondeu com um valor equivalente a cinco dólares. Um pouco aliviado, solicitei um tíquete para pagamento, ele disse que eu deveria pagar o montante na hora, entregando o dinheiro para o seu companheiro, que aguardava em uma barraca à beira do acostamento. Evidentemente, pensei em questionar o procedimento, mas na hora preferi ficar calado. Saí do carro e me dirigi à tenda improvisada, onde outros motoristas já aguardavam. Paguei o valor solicitado e ganhei um recibo, escrito à mão em um pedaço de papel. Foi o meu primeiro e único contato com a polícia local.

Mais alguns minutos e cheguei à cidade de Mbabane. A capital administrativa, e maior cidade do país, possui apenas 95 mil habitantes, e pouco a oferecer aos turistas.  Meu plano era apenas achar um lugar limpo para passar a noite e um bom restaurante para jantar, após um longo dia na estrada. Seguindo a orientação do meu guia Lonely Planet, resolvi dirigir mais um pouco até uma região próxima à capital chamada Ezulwini Valley, o coração do turismo no país e a sede da monarquia local. Lá, encontrei um albergue despojado, mas simpático, chamado Lidwala Backpacker Lodge, onde fiquei em uma tenda de safári (já me preparando para a acomodação no Kruger).

Após uma rápida passada num supermercado próximo e um bom jantar em um restaurante ao lado, estava pronto para descansar. Afinal, no dia seguinte voltaria à estrada, cruzando novamente a fronteira e entrando no Kruger, onde passaria a próxima noite.

No dia seguinte, partimos bem cedo e logo estávamos na fronteira sul-africana. Após uma rápida checagem de documentos, ainda no território suazi, encontramos uma grande loja de artesanatos e outras lembranças desse pequeno país africano. Foi a única vez que encontramos outros turistas durante esse curto tempo que permanecemos na Suazilândia. Um grupo de artistas fazia um espetáculo de danças típicas para turistas de um grande ônibus de excursão. Demos uma rápida vasculhada nas ofertas e partimos sem comprar nada. Não perdemos tempo, pois o Parque Nacional do Kruger nos esperava e a ansiedade era grande.

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