quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Trem noturno para Lao Cai

Hanói, 06 de janeiro de 2012. A composição passa lentamente pela cidade. As luzes fluorescentes dos letreiros chineses marcam a paisagem urbana assim que o trem começa a se mover. Nas esquinas, dezenas de motocicletas esperam ansiosas pela sua vez de avançar. Os pedestres atravessam a rua apressados e um pouco assustados. Poucas coisas são tão caóticas e anárquicas quanto o trânsito no Vietnã.

Em rápidos flagrantes, é possível também observar cenas do cotidiano das pequenas casas construídas próximas à linha do trem. Como fotografias em seqüência, nos permitem observar um pouco da rotina do cidadão comum. A distância entre a janela do trem e as pequenas casas é bem curta, e por isso o trem avança muito lentamente. A distância de 250 quilômetros leva incríveis nove horas para ser percorrida. Saímos de Hanói às 21 horas, com expectativa de chegarmos a Lao Cai às cinco da manhã. De lá, tomaremos uma van com destino à Sapa, uma pequena cidade no extremo norte do país.

O suave barulho metálico das rodas em contato com trilhos só é interrompido pela algazarra de alguns passageiros russos que ocupam o vagão ao lado. Eu divido a cabine com duas vietnamitas, que parecem ser mãe e filha. Não sei se por timidez, pela evidente dificuldade de comunicação, ou simplesmente por eu ser apenas mais um turista dentre muitos outros que lotam os trens do país diariamente, mas as minhas companheiras de cabine não pareciam muito interessadas na minha presença. Assim que entraram no vagão, guardaram suas bagagens no compartimente superior da cabine, arrumaram suas camas e já estavam dormindo quando o apito anunciou que iríamos partir.

Diversos outdoors anunciam as mais exclusivas marcas e os produtos mais luxuosos do mercado global. O retrato de um novo Vietnã que o velho Ho Chi Minh jamais deve ter imaginado. Mas o país está mudando rapidamente. O trânsito congestionado, os anúncios globalizados, os resorts de luxo e os trens lotados de turistas são apenas alguns dos sinais mais evidentes dessa mudança.

Volto a apreciar a paisagem pela grande janela da minha cabine. As luzes internas já foram apagadas, e apenas a pequena luz de leitura da minha cama ilumina meu bloco de anotações. Lentamente, nos afastamos da capital. E na escuridão da noite, os pequenos edifícios do subúrbio parecem todos iguais.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bangkok, a cidade sorriso e a magia dos templos


É difícil descrever uma cidade enquanto ainda estamos caminhando pelas suas largas avenidas ou estreitas vielas. Geralmente são necessários muitos dias e certa dose de distanciamento para podermos fazer uma análise mais cautelosa e precisa de algum lugar. Na verdade, até hoje ainda estou revendo e reanalisando os dias que passei em Marraquexe ou na Cidade do Cabo – cada novo lugar que conheço me fornece novos dados para poder comparar com os países que já visitei.

Mas Bangkok não é uma cidade sutil. Não são necessários mais do que alguns dias (ou mesmo algumas horas) para que ela grude em você de uma forma estranha. Talvez isso explique o grande número de estrangeiros que abandonaram tudo para vir morar aqui nessa metrópole caótica, bagunçada e cativante. O próprio guest house onde estou hospedado é um exemplo curioso desse fluxo imigratório. O pequeno e elegante Hansaah Guest House, escondido em uma estreita ruazinha próxima ao Lumphini Park, é gerenciado por um exótico casal, formado por um ex-executivo francês que largou seu emprego de alto escalão na Shell e um afeminado parceiro tailandês, cujos trejeitos vão além de qualquer tentativa de descrição.

É claro que o famoso turismo sexual ajuda (para aqueles que estão interessados, é claro), assim como os preços (muito) baixos. Mas não é isso que faz o viajante se apaixonar por Bangkok. Muitas outras cidades podem oferecer isso aos seus visitantes, mas não possuem o charme que marca Bangkok. Talvez sejam, então, as centenas de templos, com uma beleza que atordoa num primeiro momento, mas acalma e relaxa após alguns minutos de contemplação. Ou, quem sabe, são as milhares de barraquinhas de comida, espalhadas pela cidade e que vendem delícias exóticas (de ovos de codorna fritos até os mais variados insetos, surpreendentemente saborosos devido ao sal e ao tempero apimentado) por um dólar ou até menos. Isso sem esquecer do agradável passeio de barco pelos rios e canais dessa que já foi conhecida como a Veneza do oriente. Todos esses fatores (e muitos outros) já fazem de Bangkok um dos melhores destinos turísticos de todo o mundo. Mas o verdadeiro trunfo da capital tailandesa vai além dos seus preços e das suas atrações turísticas tradicionais.

Nesses insuficientes três dias que passei conhecendo um pouco dessa gigantesca capital, o que mais me impressionou foi a gentileza e a simpatia do povo local. Mesmo caminhando pelas mais escuras e desertas vielas dos bairros mais afastados, nunca me senti inseguro. E mesmo perdido no meio da multidão de um dos vários pontos turísticos – parado na calçada com um mapa na mão e olhar perdido – nunca fui assediado, não houve insistência ou qualquer atitude agressiva por parte de algum vendedor, guia, ou golpistas em geral (impossível não comparar com o clima sempre tão hostil e tenso de Marraquexe).

Quem sabe esse comportamento delicado seja fruto do Budismo, religião que os locais seguem com impressionante fervor (o que pude testemunhar nos últimos dias, quando os templos estavam lotados por fiéis em busca de boa sorte para o próximo ano). Ou então seja alguma característica moldada ao longo dos séculos na cultura tailandesa (e que nem mesmo o caos de uma metrópole conseguiu abalar). Mas o resultado é que, na multidão que toma as ruas, não se vê confusão, gritos e nem mesmo buzinas. O que sobra é uma delicadeza e uma gentileza marcantes, de um povo que não grita, não se exalta, não de expõe, que se contém.

Bangkok é conhecida como cidade sorriso. Até mesmo os anúncios oficiais apelam para esse apelido. Apesar de se tratar de campanha de marketing, não poderia haver nome mais adequado para esse lugar. E isso pode ser facilmente percebido apenas caminhando por qualquer rua, qualquer templo ou loja. E isso que faz todos quererem ficar mais tempo – ou então ficar de vez. E eu não sou uma exceção.