quarta-feira, 27 de julho de 2011

Resposta a um turista apressado

Dias atrás fui procurado por alguém que buscava minha ajuda na elaboração de um roteiro de viagens. Até aí tudo bem, já que isso acontece bem freqüentemente. Mas desta vez o objetivo era montar um roteiro de volta ao mundo em 60 dias, passando pelos cinco continentes. Dinheiro não era problema, me disse. Realmente, o problema não é o dinheiro, respondi. Na verdade, esse era a menor das preocupações para alguém que deseja conhecer o mundo todo em dois meses.

Minha primeira resposta foi padrão: “sessenta dias não são suficientes para uma viagem de volta ao mundo - pelo menos para uma viagem com um roteiro adequado e com um custo-benefício bom. Escolha um continente e planeje um roteiro focado nessa região. Dois meses pela Europa seria um tempo legal para ver as principais atrações. Ou então, passe esse tempo pelo sudeste asiático, ou mesmo na América do Sul ou Central.”

Mas não foi o suficiente. Nada parecia o fazer mudar de planos, e a volta ao mundo era quase que uma necessidade orgânica. E o pior: o prazo havia se reduzido para 51 dias. Durante a discussão (que se passou em um fórum sobre viagens), chegou-se até a cogitar que era possível dar a volta ao mundo em um mês! Fui um pouco mais incisivo: “volta ao mundo em trinta dias é quase um tour por aeroportos! Não consigo visitar às vezes nem um país direito nesse período!”

Mas não adiantou. Foi então apresentado um roteiro para a futura “volta ao mundo”: África do Sul, sete dias. Madagascar, quatro dias. Egito, quatro dias. Dubai, dois dias. Índia, quatro dias. Filipinas, quatro dias. Indonésia, quatro dias. Austrália, dez dias. E, finalmente, Nova Zelândia, oito dias.

Tentando ainda me recuperar do choque de ver alguém querendo conhecer a Índia em quatro dias (e ao mesmo tempo dedicando dez dias à Austrália, vai entender), enviei a minha posição final, uma última tentativa desesperada de convencer o turista apressado a muda de idéia – ou pelo menos pensar um pouco melhor no seu roteiro. Segue abaixo o texto que enviei, quase uma súplica.

“Você certamente voltará com muitas fotos e imagens dos lindos locais da Índia e do Egito, vai conseguir ver as pirâmides, o Taj Mahal, tirar algumas fotos dos leões africanos, e aproveitar alguns dias numa bela praia. Mas viajar é muito mais do que isso. Viajar é sentir a alma do lugar, conversar com as pessoas do país, experimentar a cultura. E isso não é possível em três ou quatro dias. É preciso mais, muito mais. É preciso ter tempo para não fazer nada, sentar em um banco e observar. É preciso ter tempo de conversar com qualquer um, ouvir como eles pensam. Os países não estão do outro lado de uma câmera fotográfica. E com tão pouco tempo, o máximo que você conseguirá é um safári fotográfico.

É claro que você voltará muito satisfeito (afinal, qualquer viagem é boa, mesmo as não tão boas assim). Terá muitas histórias para contar e milhares de fotografias para mostrar aos familiares e amigos. Mas terá sido um turista de sorte. Ou um turista com uma boa verba. O objetivo, a meu ver, é ser um viajante. E ser um viajante é não contar os dias, muito menos as horas.
Eu sei que o desejo de conhecer o mundo todo é enorme. E o medo de não termos outra oportunidade de viajar é forte. Mas é necessário resistir. Outras oportunidades vão surgir (e mesmo que não apareçam, isso não é possível de se prever). Então viaje como se fosse apenas um primeiro passo de um longo caminho. Conheça uma cultura, mais do que um lugar. E já comece a sonhar com a seguinte, mesmo que vá demorar anos até a desejada próxima viagem. Dessa maneira, você acabará a viagem mais satisfeito, e deixará um pouquinho do seu desejo contido para os próximos anos.”

Vamos torcer para que dê algum resultado. Senão, teremos mais um turista apressado no mundo, com uma câmera frenética e poucas lembranças das pessoas que conheceu no caminho.


7 comentários:

  1. Olá! Parabéns pelo blog, já li vários posts enquanto sonho com a próxima viagem. Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Veri, muito obrigado pela visita! Continue visitando sempre, hein! Abraços!

    ResponderExcluir
  3. O seu blog traz sua percepção de viajante que vivencia os lugares e suas culturas, nem sempre comum aos turistas ansiosos por quantificar os países conhecem! Sempre digo que nesses casos é melhor comprar postais das principais atrações que ficar passeando de avião e de ônibus,a um custo caro!
    Mais uma vez, parabéns pelas dicas preciosas, pelo seu olhar atento e pelo tempo que disponibiliza para atender aos novos viajantes!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Zoe, muito obrigado pela visita e pelas palavras elogiosas! Apesar da falta de tempo, tenho tentado manter o blog o mais atualizado possível. Espero ver você sempre por aqui, hein! Ah, e eu andei lendo o seu blog e achei muito bom e muito útil no planejamento da minha próxima viagem (vou à China e à Turquia agora em novembro!). Parabéns pelos seus textos! Abraços e volte sempre!

      Excluir
  4. Olá!
    Sei que o post é antigo, me deu até vergonha de comentar em um post láaaa de 2011... Hehehe... Mas gostei tanto do texto que não resisti! :)

    Enfim, concordo com tudo o que foi dito por você, em especial com a frase: "ntão viaje como se fosse apenas um primeiro passo de um longo caminho. Conheça uma cultura, mais do que um lugar." Eu sou assim, viajo no estilo "slow travel" e muitas pessoas não me compreendem. Na minha última viagem, passei 12 dias em Buenos Aires e fui duramente criticada... Mas para começar, eu detesto viajar correndo, só parando na frente de um ponto turístico, batendo uma fota e saindo correndo para o outro. O meu estilo é esse de sentar, admirar, puxar conversa com o senhorzinho sentado no banco ao lado para perguntar o nome da árvore que enfeita a praça... E segundo que deslocamentos em viagens sempre aumentam muito os gastos, afinal passagens são sempre meio carinhas.

    Abraços e parabéns pelo blog, conheço já há algum tempo e tenho lido aos pouquinhos!
    Lidia.

    ResponderExcluir
  5. Olá!
    Sei que o post é antigo, me deu até vergonha de comentar em um post láaaa de 2011... Hehehe... Mas gostei tanto do texto que não resisti! :)

    Enfim, concordo com tudo o que foi dito por você, em especial com a frase: "ntão viaje como se fosse apenas um primeiro passo de um longo caminho. Conheça uma cultura, mais do que um lugar." Eu sou assim, viajo no estilo "slow travel" e muitas pessoas não me compreendem. Na minha última viagem, passei 12 dias em Buenos Aires e fui duramente criticada... Mas para começar, eu detesto viajar correndo, só parando na frente de um ponto turístico, batendo uma fota e saindo correndo para o outro. O meu estilo é esse de sentar, admirar, puxar conversa com o senhorzinho sentado no banco ao lado para perguntar o nome da árvore que enfeita a praça... E segundo que deslocamentos em viagens sempre aumentam muito os gastos, afinal passagens são sempre meio carinhas.

    Abraços e parabéns pelo blog, conheço já há algum tempo e tenho lido aos pouquinhos!
    Lidia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Lídia, tudo bem? Muito obrigado pelas suas visitas ao Cruzando Fronteiras e pelas palavras carinhosas. Espero ver você sempre por aqui, hein! Agora que retornei de viagem, voltarei a atualizar o blog com mais frequência e com muitas histórias da China e da Turquia!

      Abraços,

      Luiz

      Excluir