terça-feira, 14 de junho de 2011

Relato de Viagem, África do Sul – Parte 1: A beleza do Cabo esconde a vergonha do Apartheid.

Se algum desavisado fosse tele-transportado para a Cidade do Cabo e, por obra do acaso, se materializasse na renovada região portuária conhecida como Victoria and Alfred Waterfront, acreditaria estar caminhando no litoral Mediterrâneo ou em alguma cidade costeira européia. E não estaria tão enganado assim.

Cidade do Cabo é uma cidade belíssima, e a sua semelhança natural com o Rio de Janeiro resiste até meio a um olhar mais atento. O contraste do mar azul com a montanha rochosa que cerca a cidade encanta qualquer visitante. O platô magnífico da Table Mountain é espetacular, e a visão do seu topo, encantadora. E o clima agradável na maior parte do ano completa um cenário único.

Além da beleza natural da cidade, a região em seu entorno possui atrações suficientes para ocupar o turista por pelo menos uma semana. Pedalar pelas estradas vazias do Parque Nacional do Cabo da Boa Esperança, sentindo o forte sol e o vento ainda mais forte, e tendo por testemunhas apenas alguns avestruzes ou babuínos solitários é uma experiência inesquecível. Após deixar de lado as bicicletas, caminhar por trilhas demarcadas que levam ao ponto mais ao sul do continente. A placa fincada que resistia ao constante vendaval, informava a distância que nos separava de casa: 6.055Km.

Na manhã seguinte, uma van contratada pelo nosso bed & breakfast nos aguardava. Em um pequeno grupo – não mais do que seis ou sete pessoas - partimos rumo à região vinícola do Cabo, para experimentar dezenas de variedades e os mais distintos sabores. Além dos vinhos brancos, tintos e espumantes, o dia incluía também queijos e chocolates. Alguém tinha que sussurrar nos meus ouvidos e me lembrar que estava na África.

Cidade do Cabo é também famosa por seus restaurantes. Nos cinco dias que passei na cidade, pude experimentar as mais saborosas carnes de caça, incluindo os exóticos antílopes conhecidos como Kudu, Eland e Waterbuck. Pude, também, aproveitar o melhor da culinária africana em restaurantes bonitos e luxuosos, feito especialmente para atrair os turistas europeus e norte-americanos que se apaixonam pela cidade.

Mas antes de partir, uma última atração serviu para nos trazer de volta a realidade: a visita à Ilha de Robben, localizada a dez quilômetros da costa, e o local onde Nelson Mandela e milhares de outros prisioneiros permaneceram por décadas. Muitos deles perderam suas vidas ou então carregam seqüelas permanentes, vítimas do repugnante regime segregacionista conhecido como Apartheid. Caminhar pelos corredores da antiga prisão, olhando assustado e curioso para dentro das celas – bem mais limpas e arrumadas do que no seu período ativo – é uma experiência marcante. Os guias do local são antigos prisioneiros, eles mesmos marcados por anos de tortura e maus-tratos. Descreviam as péssimas condições e as humilhações com resignação, em um tom calmo e pausado. A emoção em suas vozes é nítida, mesmo após tanto tempo de liberdade. Mas o que realmente perturba o visitante atento é a maneira humilde e submissa com que ele se dirigia aos turistas, quase todos europeus caucasianos.

Mas o Apartheid não está restrito à famosa Ilha, ou ao pequeno museu junto ao cais de onde saem os barcos que nos levam até lá. Despercebida e escondida nesta linda cidade de ruas limpas e organizadas, a segregação permanece viva. Durante o período colonial, a cidade foi considerada uma zona proibida para negros, que podiam apenas trabalhar no local, mas não fixar residência. Zonas inteiras foram destruídas e seus habitantes (negros e mestiços) realocados para outras cidades da região. O emocionante Museu do District Six conta essa história de evacuação forçada e é uma atração imperdível.

Apenas com o fim do regime racista sul-africano, os negros voltaram permanentemente à cidade. Mas caminhando pelo luxuoso litoral não se vê a propagada miscigenação. Nas praias, o luxo dos carros conversíveis e restaurantes à beira-mar surpreendente quem não conhecia a cidade e estava convencido pelo estereótipo africano.  Os habitantes negros estão escondidos nas cozinhas ou nas vans superlotadas que às vezes eu vi passar. É uma lembrança viva do período de segregação, que permanece vivo e latente apesar dos anos passados.

Um taxi nos levou ao moderno aeroporto, reformado para a Copa do Mundo, que ocorreria em menos de seis meses. A visão do lindo estádio de futebol no retrovisor já deixava saudades. Um breve vôo nos levaria à Durban, segunda parada do meu roteiro.

(Essa é a primeira parte do relato da minha viagem à Africa do Sul, em fevereiro e março de 2010. Foram 25 dias no país, conhecendo Cidade do Cabo, Durban, Sta Lucia, Suazilândia, Krugger, Graskop e Johannesburg.  Fique atento aos novos posts!)

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