sábado, 28 de maio de 2011

Relato de Viagem, parte 9: Fez, a cidade imperial

A distância entre Ifrane e Fez é curta e o trajeto é feito em pouco mais de uma hora. Antes mesmo do meio dia já estacionávamos ao lado da estação ferroviária e nos dirigíamos para o Hotel Ibis, onde ficaríamos nos próximos quatro dias. O hotel não era especial em nenhum aspecto, mas oferecia o essencial para proporcionar um merecido descanso, após o extenuante ritmo das semanas anteriores. A viagem estava chegando ao fim. Esta seria a última parada antes do destino final, Casablanca.
Fez é a segunda maior cidade marroquina, com aproximadamente um milhão de habitantes. É uma cidade histórica, fundada em 789 por Idriss I, que governou o Marrocos por apenas quatro anos, entre 788 e 791. Já foi a capital do país e hoje sua Medina é considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. A sua principal Universidade, Al-Karaouine, fundada em 859, é a mais antiga universidade ainda em funcionamento no mundo.
Todo esse passado e importância histórica são sentidos no momento em que atravessamos os enormes portões da cidade antiga, Fez El Bali. Como viajantes do tempo, retornamos a um mundo de mercadores árabes e berberes, de vielas e carroças, de cheiros e sons, que nos embriaga e confunde. Após um período atravessando estradas e descobrindo o deserto, com sua solidão e silêncio, somos novamente surpreendidos com a confusão e os ruídos da Medina, apesar de já termos vivido algo semelhante em Marraquexe. A alma marroquina está mais viva do que nunca nas pequenas tendas onde aproveito os últimos dias da viagem para comprar alguns presentes e lembranças. O grande esforço e o longo debate para se atingir um preço um pouco mais justo confirmam a fama de firmes negociantes dos marroquinos. Mas é algo que um turista dificilmente consegue evitar, e nem deveria. Afinal, negociar é parte da brincadeira.
As mesquitas são uma visão comum na Medina, estão por toda a parte. O freqüente chamado para oração é a trilha sonora de qualquer viagem ao Marrocos. Infelizmente, a entrada é proibida para os que não são muçulmanos. Me resta, portanto, ficar do lado de fora, tentando fotografar ou espiar pela porta ou qualquer fresta que surja e permita uma breve visão do seu interior belo e trabalhado.
Outra famosa atração da cidade são as “tinturarias” a céu aberto, também conhecidas como tanneries. Dos terraços das casas vizinhas, se observa centenas de recipientes talhados em pedra e preenchidos por substâncias dos mais diversos tons, utilizados no tingimento do couro da região. Depois de tingidos, são pendurados para secar. É uma visão estranha e curiosa, e o terrível odor completa um cenário excêntrico. Mais uma amostra da fascinante cultura local.
Encontrar as tanneries não é uma tarefa fácil no enorme labirinto da Medina. Dezenas de jovens rapazes se oferecem para nos guiar, em troca de um euro ou dois. Mas para aqueles que desejam caminhar com conta própria, só resta vagar pelas vielas tentando esbarrar no local procurado, quase que por obra do acaso. A única pista são os próprios “guias”. Um crescente número de ofertas e abordagens nos mostra que estamos nos aproximando do local correto.
A algumas dezenas de quilômetros de Fez situa-se outra grande atração, muitas vezes desconhecida dos turistas e viajantes. Volubilis é um sítio arqueológico onde estão localizadas as mais bem preservadas ruínas romanas do norte da África. Assim como a Medina de Fez, Volubilis também foi decretado patrimônio da humanidade pela UNESCO.
Uma visita a este grandioso local é um experiência imperdível. As colunas e arcos, assim como os incrivelmente preservados mosaicos, nos dão uma breve visão de como seria a vida neste remoto canto do Império Romano. O estado de preservação das ruínas surpreende e talvez seja explicado pela sua localização um pouco remota. Ainda distante da legião de turistas que invade Roma todos os anos, Volubilis pode oferecer um pouco de paz aos seus visitantes. Observar a paisagem sem qualquer pessoa por perto, sentado nos degraus do antigo Fórum ou descansando sob os arcos construídos por ordem do imperador Caracallas, é um grande privilégio.
Com tantas atrações, logo os quatro dias se passam e chega a hora de retornar o carro alugado em Essaouira e me dirigir à bela e moderna estação ferroviária de Fez, onde embarcaria no trem que parte rumo à Casablanca. Seria meu primeiro trecho ferroviário no país, e estava ansioso por essa experiência.
Pontualmente, o trem partiu. Seriam quatro horas até a maior cidade do país. Na mesma noite, embarcaria no vôo que me levaria ao Brasil após dezessete dias de aventuras marroquinas.

(Este post é a nona parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)


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