segunda-feira, 16 de maio de 2011

Relato de Viagem, parte 8: Das dunas douradas aos brancos picos nevados, a completude marroquina

As dunas de Merzouga não eram mais do que uma imagem minguante no empoeirado retrovisor. À frente, as montanhas se aproximavam lentamente, e os picos nevados demarcavam minha próxima parada. Seria mais um longo dia ao volante, em direção à Fez, com uma breve parada no caminho. Tentando decifrar o complexo mapa marroquino, segui por oito longas horas guiando meu pequeno, mas valente Sukuzi pelas montanhas. Contornando as encostas e desafiando desfiladeiros, atingi a elegante cidade de Ifrane, no topo dos Atlas, já ao fim da tarde.

O cenário ao longo do trajeto era majestoso. Inspirado pela beleza do Saara e ansioso pela noite fria e nevada de Ifrane, mal senti passarem as horas. O sol forte e um céu azul sem nuvens colaboravam para uma bela visão, enquanto a paisagem ia mais uma vez se transformando do deserto dourado e arenoso, ao clima montanhoso de árvores coníferas. As estradas eram quase sempre vazias, com exceção de algum eventual caminhão, que seguia buzinando pelas estreitas curvas, tentando evitar uma colisão. O clima se tornava frio e úmido à medida que avançávamos. Logo o marrom deu lugar ao cinza das pedras e este ao verde da vegetação de altitude.

Atingimos o topo da cadeia de montanhas no início da tarde. Logo depois, avistamos surpresos o branco da neve. Apenas algumas horas após deixarmos nossos dromedários descansando em frente ao Riad, estávamos cercados pelo gelo e frio, numa cidade conhecida como a “Suíça marroquina”.

Ifrane é uma pequena cidade encravada na cordilheira dos Atlas. Famosa por sua estação de esqui, foi desenvolvida pelos franceses durante o período de protetorado, sendo escolhida como sede da administração colonial devido ao seu clima agradável (na perspectiva francesa, é claro).  Com uma atmosfera claramente européia e tomada por chalés e lareiras, a cidade conta também com um grande palácio de verão do Rei. Recentemente, este mandou construir uma universidade privada com aulas na língua inglesa, em uma parceria estratégica com o governo norte-americano.

 
Não se poderia imaginar um contraste maior entre duas cidades. Tomando café da manhã na vila berbere de Merzouga, após uma noite sobre as areias do Saara, descansar ao fim do dia junto à lareira quase alpina da cidade quase francesa de Ifrane. Uma visão curiosa de uma elite marroquina, onde véus eram raros e as ruas não tinham espaço para jumentos, carroças ou vendedores de poções. Apesar de europeizada e mesmo elitizada, as ruas impecáveis de Ifrane eram tão marroquinas quanto o caos da Medina de Marraquexe. Eram apenas dois extremos de um país complexo e milenar.


(Este post é a oitava parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)



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