terça-feira, 10 de maio de 2011

Relato de Viagem, Parte 7: O Oceano de Fogo das Dunas do Deserto


Dizer que Merzouga é uma pequena cidade seria exagerar enormemente no seu tamanho. Chamá-la de vila já seria muito. Merzouga é pouco mais do que um grupo de casas baixas, ocres, feitas de barro e com um terraço plano onde os turistas aproveitam a vista e o café da manhã em seus Riads. O turismo é a única razão para a existência desse povoado, e a insistência com que os homens e rapazes oferecem hospedagem, passeios e tudo o mais, reflete esta dependência econômica.

Menos de uma hora após minha chegada apressada ao Riad Mamouche, já estava sentado em um sofá, de banho tomado, enquanto aguardava meu jantar. Surpreendentemente, o sistema de internet sem fio funcionava perfeitamente, apesar de, pela janela, enxergar pouco mais do que areia. Em um espanhol perfeito, o funcionário do Riad explicava os detalhes do passeio ao deserto, que sairia no dia seguinte às três da tarde. Ele falava sete línguas, incluindo o japonês. Mais um retrato da importância do turismo para esse povo berbere.

O jantar estava delicioso e incluía sobremesa, mais uma surpresa agradável neste local tão remoto. Cansado pela longa viagem, logo estava deitado. Adormeci pensando em quanto dependemos da sorte quando estamos viajando. Por mais que nos preparemos, sempre ficamos à mercê da boa vontade de estranhos, ou de acontecimentos aleatórios. Naquele dia, tudo havia corrido conforme o planejado. Rezei para que continuasse assim.

A manhã seguinte foi de repouso e letargia. Mas logo após o almoço já estávamos aos pés de uma duna, grande como uma montanha, chacoalhando sobre um dromedário rumo a um acampamento em pleno Saara. Seriam duas horas e meia até chegarmos às nossas tendas.

O oceano de fogo das dunas do deserto está além de qualquer descrição. As longas sombras projetadas pelo sol do fim da tarde tornavam a paisagem ainda mais bela. Um frenesi fotográfico tentava em vão captar tamanha beleza. Nenhuma câmera conseguiria refletir com precisão as cores do lugar.

Um pouco antes do por do sol atingimos nosso acampamento, cedo o suficiente para subirmos na mais alta duna, de onde pudemos observar o magnífico pôr-do-sol. Do alto da duna se via todo o deserto marroquino, com as montanhas Atlas ao fundo, nos indicando de onde havíamos vindo e para onde iríamos no dia seguinte. Mesmo na imensidão do deserto, não estávamos sozinhos. Alguns outros turistas observavam o mesmo cenário. Do alto da duna, outras barracas eram visíveis, mas estavam estrategicamente posicionadas de forma que não pudessem ser vistas ou ouvidas quando retornássemos ao nosso abrigo.

O jantar foi servido à luz de velas pelo nosso guia, acompanhado do chá de menta tradicional. O silêncio era absoluto e só a nossa voz era ouvida. Fora de nossa tenda, a claridade surpreendia. A luz da lua era suficiente para iluminar mesmo à distância. O frio castigava e se tornava mais intenso a casa hora.

Foi uma noite desagradável. Muito devido ao frio imenso que me impedia de dormir, apesar dos três cobertores oferecidos pelo guia. Um pouco também pela minha falta de preparo, já que estava apenas com uma calça jeans e um casaco, evidentemente insuficientes para o inverno no deserto.


De acordo com o roteiro, o guia deveria nos acordar ao final da madrugada, para que testemunhássemos a aurora. Não foi o que ocorreu. O sol já estava no horizonte quando despertei. Hassan, o guia, dormia profundamente quando passamos pela sua tenda, caminhando em direção a uma duna um pouco mais alta. Mesmo tendo perdido o nascer do sol, a paisagem era muito bela. As cores da manhã, mais suaves, eram bem diferentes do tom dourado do fim de tarde. 

 
Já passava das nove horas quando Hassan apareceu, sonolento, e afirmou que devíamos partir, pois estávamos atrasados. As duas horas e meia do retorno à Merzouga foram semelhantes às do dia anterior, apesar da mudança na paisagem. O encanto com a visão do infinito deserto e a compulsão por fotos e vídeos foram os mesmos. Logo estávamos de volta ao nosso Riad, onde o café já nos esperava no terraço.


(Este post é a sétima parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)



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