quarta-feira, 4 de maio de 2011

O magnífico "Gorges du Dadès" e a chegada ao Saara marroquino

Ainda sob o efeito da espetacular visão de Ait Benhaddou no dia anterior, retornei à estrada rumo ao Saara marroquino. Deixei o Hotel Mercure Ouarzazate logo após o café da manhã, reforçado com as tradicionais panquecas locais e o sempre presente chá de menta. Os planos para o dia não estavam bem definidos. Merzouga, o meu destino final, estava um pouco distante demais, e não era certo se conseguiria atingi-lo antes do anoitecer. As condições da estrada e da sinalização não eram conhecidas e isso poderia prejudicar a velocidade média do percurso. Sendo assim, resolvi avançar até onde o tempo permitisse, e parar assim que a noite surgisse. Dirigir no escuro não seria prudente.

Logo após deixar Ouarzazate, entramos no que é conhecido como Vale dos Mil Kasbahs, um local belíssimo que foi assim batizado devido às muitas ruínas de antigas fortalezas berberes que se encontram ao longo da estrada. A paisagem era incrível, com suas cores variadas e seu cenário desértico. As oportunidades fotográficas são infinitas nessa região do país, e mesmo um amador como eu consegue excelentes fotografias. O céu sempre azul oferece um colorido ainda maior, e faz com que as imagens fiquem mais lindas.


As estradas estavam em boas condições, o que acabou sendo o padrão pelo restante da viagem. O tráfego era bem escasso, e passavam muitos minutos sem que eu avistasse outro carro na estrada. Como em um cenário de imaginação, o que se via era uma longa e reta estrada vazia, cortando uma paisagem semi-árida e quase intocada. Em pouco mais de uma hora, e após um desvio de quinze minutos da estrada principal, chegamos a um local conhecido como Gorges du Dadès. Após a visão de Ait Benhaddou, uma maravilha histórica feita pelo homem, os cenários deste cânion me surpreenderam e se igualaram na beleza e no impacto que proporcionavam ao viajante desprevenido. 


Aquela era uma região bastante remota, que se estendia por quilômetros, cruzando as entranhas da Cordilheira do Atlas. Tentando em vão manter a concentração enquanto dirigia, admirava as formações rochosas e os desfiladeiros que marcavam a paisagem, com seus cores e tons em uma mistura única e espetacular. Dirigi por uma hora nas pequenas estradas, ora seguindo o leito de um pequeno rio, ora serpenteando pelas encostas rumo às altas montanhas. Do alto do cânion, sem uma construção ou ser humano à vista, agradeci pela oportunidade de estar ali, e me senti um sortudo por ter feito a opção por este roteiro ao invés de escolher o trajeto mais comum, o famoso trem que liga Marrakesh à Fez.



Distraído e hipnotizado pelos Dades, me retive um pouco mais do que deveria no local. Após aproximadamente duas horas desde que tomei o desvio à esquerda, retornei à estrada principal, rumo à Merzouga. Já passava bastante de meio dia, e ainda havia um longo caminho até o deserto. Acelerando na estrada vazia, fui observando a paisagem mudar enquanto os quilômetros eram deixados para trás. A aridez das pedras e formações rochosas foi sendo substituída pelo deserto de dunas douradas. Surgiram os primeiros dromedários ao longo da via, e cada foto era acompanhada por um pedido de dinheiro de algum menino pastor.


Como o deserto era um destino turístico relativamente movimentado, ao se aproximar de Merzouga começamos a observar algumas pessoas conhecidas como faux guides. São os falsos guias, que ficam a beira da estrada tentando fazer com que os motoristas parem ou reduzam a velocidade, mesmo que isso signifique parar no meio do caminho balançando os braços e obstruindo a passagem, ou mesmo pintar de negro as placas que apontam as direções, tentando confundir os desavisados motoristas.  Assim, tentam intimidá-los e atraí-los para hotéis, tours ou mesmo roubá-los. Como descobri posteriormente, muitos desses falsos guias são originários da Argélia, e vivem, além do que conseguem com a tática descrita acima, da extração de fósseis que são vendidos aos turistas.

Cruzando esse inesperado obstáculo, seguimos com ainda mais pressa, pois o sol já tocava as montanhas no horizonte. Faltavam apenas algumas dezenas de quilômetros, mas conseguimos chegar à cidade. Finalmente parei o carro na porta do Riad Mamouche, após dez horas na estrada, quando a escuridão escondia as dunas ao largo das poucas ruas que formavam a pequena cidade de Merzouga. 

(Este post é a sexta parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)

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