sábado, 30 de abril de 2011

Relato de Viagem, parte 5: Ouarzazate e Ait-Bennhadou


Ouarzazate está situada na cordilheira dos Atlas, ao sul da região conhecida como Alto Atlas, e é comumente chamada de “A Porta para o Deserto”. Há milênios é utilizada como ponto de parada para descanso e abastecimento por viajantes e mercadores em suas caravanas entre o deserto do Saara e a costa do Mediterrâneo. Após um longo dia dirigindo desde Essaouira, segui a tradição e me detive nesta cidade por algum tempo, a fim de conhecer melhor suas atrações e me preparar para outro longo dia na estrada, rumo às dunas de Merzouga.

Ao sul de Ouarzazate, a paisagem se torna desértica. Não um deserto de areia e dunas, mas um oceano de pedras e terra seca, com seus diversos tons formando um belo cenário marrom-avermelhado. Pontilhando esse cenário árido, os kashbas resistem bravamente à ação do tempo e da chuva, apesar de serem construídas basicamente de terra batida.

Os kashbas são fortalezas construídas há centenas de anos como uma forma de defesa dos povos locais. Seu tamanho e beleza representavam o prestígio de uma população. Nas cercanias de Ouarzazate há um grande número dessas estruturas, e os melhores e mais bem preservados exemplos estão localizado em Ait-Benhaddou, um ksar declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1987. Ait Benhaddou está localizado ao largo de um pequeno riacho, que devemos atravessar cuidadosamente antes de cruzar as muralhas da cidade-fortaleza. Uma vez em seu interior, pode-se notar a aparente fragilidade das construções. As paredes, o piso e o teto são feitos de terra batida, pequenos gravetos e palha. Parece incrível que tenham resistido tanto tempo em boas condições. O local é composto de inúmeras casas de dois ou três andares, além de outras pequenas construções, formando um vilarejo onde até hoje habitam algumas famílias. Por longas escadas e vielas estreitas, pode-se subir ao topo da encosta onde o ksar foi construído.





A visão do topo de Ait-Benhaddou me fez lembrar Macchu Picchu, apesar dos cenários absolutamente distintos. Observar uma cidade histórica totalmente preservada, como se congelada no tempo, é um grande privilégio e a preservação desse local, uma obrigação. Os picos nevados no horizonte, sempre presentes, compunham com o verde oásis à beira do rio e a paisagem lunar do deserto de pedras, um cenário magnífico e único.

Soube pelo meu guia que o ksar é comumente utilizado como cenário em gravações de Hollywood. Filmes como Alexandre (2004), Gladiador (2000), A Múmia (1999), A Jóia do Nilo (1985), Lawrence da Arábia (1962) e muitos outros já foram gravados em seu interior. Isso acabou favorecendo a preservação e a manutenção do local, como uma forma de compensação pela utilização do espaço.

Antes de retornar à cidade, fiz uma breve parada nos grandes galpões que serviam de estúdio durante as gravações de Hollywood. O tour guiado nos levava por grandes cenários de isopor e por itens trabalhados em madeira, que representavam estátuas de época, bigas, armaduras e uma grande variedade de armamentos. A artificialidade e o caráter descartável desses itens contrastava com o a presença grandiosa dos kashbas e ksares.


Alguns locais emocionam por sua beleza e pela inevitável consciência de que é um privilégio poder observá-los de perto. Certamente Ait-Benhaddou se enquadra nessa categoria. Revigorado por esta experiência inesquecível e ansioso pelo que me aguardava nos próximos dias, parti em direção ao deserto e rumo a visões ainda mais belas.


(Este post é a quinta parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)



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