domingo, 17 de abril de 2011

Chegada à cidade-vermelha

 
 A visão do oceano ocre através da pequena janela do avião que me levou de Lisboa à Marraquexe já era uma prenúncio do que me esperava.  A inconfundível cor do norte da África, com seus diferentes tons e nuances, e ocasionais palmeiras verdes, contrastava com o azul vivo do céu de janeiro.  A expectativa fazia com que esse rápido trajeto de pouco mais de duas horas se transformasse em uma longa jornada. Por fim, pousamos em segurança no pequeno e limpo aeroporto da cidade.

Marraquexe, também conhecida como cidade-vermelha, é a terceira maior metrópole do Marrocos. Está incrustada na base da Cordilheira Atlas, que parece observar a cidade à distância, com suas montanhas nevadas nos convidando para ir adiante.  A coloração marrom-avermelhada que a caracteriza é a primeira impressão de um viajante ao desembarcar no aeroporto de Menara. E ao cruzar as suas largas avenidas, sentado junto à janela do ônibus que me levaria à milenar Praça Djemaa El-Fnaa, esta impressão se confirma e o título de pérola do sul se mostra mais do que justo.
O ônibus me deixou em frente à Mesquita de Koutoubia, com seu magnífico minarete, visível de boa parte do centro histórico, e que passou a funcionar como uma espécie de localizador, nas muitas vezes em que me perdi nas infinitas ruelas da Medina.  De lá, após caminhar poucos metros, estava na famosa praça.  
Djemaa El-Fna é o centro de toda ação e de todo turismo de Marraquexe. Em um primeiro encontro, é impossível não se sentir intimidado pela multidão e pelo aparente caos. Os diferentes sons, as músicas que se misturam e os cheiros mais diversos, confundem um pouco os sentidos, e o viajante de primeira hora inevitavelmente procura recuar e observar à distância. Mas na loucura da praça, isso é quase impossível. Qualquer sinal de dúvida ou indecisão é rapidamente detectado pelas dezenas (ou serão centenas?) de rapazes e senhores que fazem do local seu campo de caça. Logo sou abordado seguidamente com ofertas de ajuda, hospedagem, comida, suco de laranja, tecido, e qualquer outra coisa que possa ser comercializada e que costume atrair a atenção dos milhares de turistas que lotam a praça todos os dias. Acuado, recuso rapidamente qualquer oferta e tento me dirigir ao Riad Andalla, onde me hospedaria nos próximos quatro dias. No meio da confusão, tento recordar o mapa que o pequeno hotel disponibilizava aos seus hóspedes pela internet, mas que eu não havia levado comigo na viagem. O trajeto parecia bem simples, e o Riad ficava a apenas alguns minutos da praça. Porém, na confusão da Medina, bastam alguns passos para um turista desavisado se perder de forma irremediável.
Após três tentativas mal sucedidas, partindo da praça e recuando diante de um beco escuro, ou de um caminho sem saída, comecei a pensar que não seria assim tão simples. A minha mochila denunciava minha situação de recém chegado, e me tornava alvo de uma atenção cada vez maior. Partindo e retornando à praça, olhar confuso buscando alguma placa ou sinal que pudesse ter passado despercebido nas tentativas anteriores, as abordagens se tornavam cada vez mais freqüentes. Por fim, contrariando meus próprios princípios e deixando um pouco de lado meu orgulho de viajante, aceitei a ajuda de um senhor que me guiou por entre ruelas e becos até o meu destino final. Ao alcançar a porta de madeira belamente trabalhada do Riad, tive a certeza que jamais teria avançado até ali sem a ajuda do meu novo amigo marroquino. Em troca de uma moeda de dois euros, pude finalmente relaxar no terraço com vista para a praça, debruçado sobre o mapa da cidade, e antecipando dezessete dias de aventuras no Marrocos.


(Acompanhe nos próximos posts a continuação deste relato. Foram 17 dias nos Marrocos, em janeiro de 2010, visitando diversos lugares, incluindo Marraquexe, Essaouira, Ouarzazate, Merzouga, o deserto e Fez)

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