sábado, 30 de abril de 2011

Relato de Viagem, parte 5: Ouarzazate e Ait-Bennhadou


Ouarzazate está situada na cordilheira dos Atlas, ao sul da região conhecida como Alto Atlas, e é comumente chamada de “A Porta para o Deserto”. Há milênios é utilizada como ponto de parada para descanso e abastecimento por viajantes e mercadores em suas caravanas entre o deserto do Saara e a costa do Mediterrâneo. Após um longo dia dirigindo desde Essaouira, segui a tradição e me detive nesta cidade por algum tempo, a fim de conhecer melhor suas atrações e me preparar para outro longo dia na estrada, rumo às dunas de Merzouga.

Ao sul de Ouarzazate, a paisagem se torna desértica. Não um deserto de areia e dunas, mas um oceano de pedras e terra seca, com seus diversos tons formando um belo cenário marrom-avermelhado. Pontilhando esse cenário árido, os kashbas resistem bravamente à ação do tempo e da chuva, apesar de serem construídas basicamente de terra batida.

Os kashbas são fortalezas construídas há centenas de anos como uma forma de defesa dos povos locais. Seu tamanho e beleza representavam o prestígio de uma população. Nas cercanias de Ouarzazate há um grande número dessas estruturas, e os melhores e mais bem preservados exemplos estão localizado em Ait-Benhaddou, um ksar declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1987. Ait Benhaddou está localizado ao largo de um pequeno riacho, que devemos atravessar cuidadosamente antes de cruzar as muralhas da cidade-fortaleza. Uma vez em seu interior, pode-se notar a aparente fragilidade das construções. As paredes, o piso e o teto são feitos de terra batida, pequenos gravetos e palha. Parece incrível que tenham resistido tanto tempo em boas condições. O local é composto de inúmeras casas de dois ou três andares, além de outras pequenas construções, formando um vilarejo onde até hoje habitam algumas famílias. Por longas escadas e vielas estreitas, pode-se subir ao topo da encosta onde o ksar foi construído.





A visão do topo de Ait-Benhaddou me fez lembrar Macchu Picchu, apesar dos cenários absolutamente distintos. Observar uma cidade histórica totalmente preservada, como se congelada no tempo, é um grande privilégio e a preservação desse local, uma obrigação. Os picos nevados no horizonte, sempre presentes, compunham com o verde oásis à beira do rio e a paisagem lunar do deserto de pedras, um cenário magnífico e único.

Soube pelo meu guia que o ksar é comumente utilizado como cenário em gravações de Hollywood. Filmes como Alexandre (2004), Gladiador (2000), A Múmia (1999), A Jóia do Nilo (1985), Lawrence da Arábia (1962) e muitos outros já foram gravados em seu interior. Isso acabou favorecendo a preservação e a manutenção do local, como uma forma de compensação pela utilização do espaço.

Antes de retornar à cidade, fiz uma breve parada nos grandes galpões que serviam de estúdio durante as gravações de Hollywood. O tour guiado nos levava por grandes cenários de isopor e por itens trabalhados em madeira, que representavam estátuas de época, bigas, armaduras e uma grande variedade de armamentos. A artificialidade e o caráter descartável desses itens contrastava com o a presença grandiosa dos kashbas e ksares.


Alguns locais emocionam por sua beleza e pela inevitável consciência de que é um privilégio poder observá-los de perto. Certamente Ait-Benhaddou se enquadra nessa categoria. Revigorado por esta experiência inesquecível e ansioso pelo que me aguardava nos próximos dias, parti em direção ao deserto e rumo a visões ainda mais belas.


(Este post é a quinta parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tragédia em Marraquexe

Acabo de receber de uma amiga a notícia de que houve um terrível atentado terrorista em Marraquexe. Uma bomba explodiu em um dos mais importantes restaurantes da cidade, o Café Argana, na Praça Djemaa El-Fna. O telhado sobre o segundo andar do café foi arrancado pela força da explosão, e pedaços do emboço e fios elétricos ficaram espalhados.

Relatos iniciais apontam para mais quinze mortos, segundo reportagem da Folha de São Paulo. O número de feridos passa de vinte. Esse é o primeiro grande atentado terrorista no Marrocos desde 2003.

Não há palavras para descrever o grau de barbárie de um atentado como esse em um local que é a alma de uma cidade e de um povo. Um Patrimônio Cultural da Humanidade.

Não há causas políticas, justas ou não, que justifiquem tal ato. 



Dica de Leitura II – Esqueletos no Saara

Trago mais uma sugestão de leitura para todos aqueles que são apaixonados por livros e aventuras! Esqueletos no Saara (2005) foi escrito por Dean King e é um relato verídico de sobrevivência em condições extremas.

Em 1815, o brigue Commerce deixou os Estados Unidos com uma tripulação de onze marinheiros, comandados pelo capitão James Riley. A viagem possuia objetivos comerciais: comprar sal na costa africana e vender tabaco e farinha. Entretanto, a embarcação naufragou junto ao perigoso cabo Bojador, na costa ocidental do continente (na altura da atual Mauritânia).

Após enfrentar o ataque de nativos, a tripulação voltou ao mar num pequeno bote, onde passou dias de provação, esperando por socorro. Exaustos e sedentos, os homens decidiram voltar para terra firme. Encontraram uma paisagem desalentadora: estavam às margens do Saara. Na entrada do maior deserto do mundo, foram capturados por árabes muçulmanos nômades. Escravizados, enfrentaram fome, sede, insolação, cansaço extremo, torturas. O jornalista norte-americano Dean King reconstitui essa aventura perturbadora, de maneira impactante, baseando-se nos relatos dos sobreviventes e flertando com a história natural, a geografia, a ciência e a antropologia. King também descreve os costumes islâmicos, a vida das tribos nômades e particularidades da fauna e das formações geológicas do deserto.

É uma leitura emocionante (apesar de um pouco densa a princípio), que prendeu minha atenção e me fez terminar o livro em tempo recorde! 



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Faça seu real te levar mais longe. Dicas para economizar durante suas viagens.

Quem nunca viajou com o dinheiro contado, se preocupando com cada dólar gasto? Quem nunca pensou em caminhar por muitos e muitos quarteirões para economizar uma passagem de ônibus? - “Vai que faz falta no fim da viagem?” - E quem nunca trocou um jantar ou almoço por um sanduíche ou alguma coisinha comprada no supermercado local?

Qualquer viajante experiente já considerou uma vez ou outra algum ato exagerado apenas para economizar um trocado. Mas viajar economicamente não deveria significar viver apenas de pão, dormir nas estações de trem, ou esquecer aquela atração que custa uma fortuna. Ok, preste atenção nos seus gastos, mas não deixe de aproveitar o seu destino apenas para economizar alguns reais.

Para auxiliá-los, segue uma lista com dez dicas para fazer os seus reais te levarem mais longe:

1 – Viaje em dupla. Viajar com uma companhia tem muitas vantagens (e algumas desvantagens). A principal economia será nos hotéis, onde um quarto duplo muitas vezes custa o mesmo ou um pouco mais do que um quarto simples. Nas refeições e nos taxis, você também pode economizar bastante se tiver alguém para dividir a conta.

2 – Coma em restaurantes, mas só uma vez por dia. Não, isso não quer dizer que você deva passar fome. Se o seu hotel fornece café da manhã, melhor ainda. Capriche nessa primeira refeição diária. E passe o dia passeando e conhecendo lugares. Durante o dia, engane o seu estômago com pequenos lanches e comidinhas baratas vendida nas ruas. Após um dia de aventuras e com grande apetite, faça um bom jantar ou um almoço tardio. Você poupa seu tempo e um bom dinheiro, já que restaurantes às vezes levam uma boa parte do orçamento diário!

3 – Fuja das cidades caras! Mesmo nos países mais baratos, algumas cidades destoam das demais por causa do seu alto custo. Geralmente isso ocorre nas capitais ou grandes centros econômicos. Mas não significa que você deva pular esses destinos, já que, às vezes, lá estão as maiores atrações do país. Mas, se for passar uns dias extras relaxando, procure evitar gastá-los em grandes centros e prefira pequenas cidades do interior.

4 – Não reserve tudo com antecedência. Reservar passeios e tours antes de chegar ao seu destino não é uma boa idéia. Cada atravessador leva o seu bocado e o preço inevitavelmente acaba saindo mais alto. Deixe para organizar seus passeios quando chegar ao país de destino ou mesmo na cidade em questão.

5 – Durma na estrada. Uma boa maneira de economizar e ainda poupar tempo é utilizar ônibus e trens noturnos quando fizer longos deslocamentos. Ao viajar à noite, você chega à nova cidade pela manhã, pronto para um novo dia de aventuras, e ainda poupa o dinheiro do hotel. Alguns trens possuem cabines com camas excelentes e muitos ônibus são relativamente confortáveis (quer dizer, você não vai dormir muito bem, mas vai conseguir descansar um pouco).

6 – Mantenha o contato, mas com cuidado. Ligações internacionais custam uma fortuna. Pelo celular então, não pensar! Para economizar nas viagens, o melhor é utilizar a internet gratuita que muitos hotéis e albergues oferecem aos seus hóspedes. E utilize o VoIP para falar com a família e amigos. Se possível, leve um netbook ou algum aparelho similar com acesso wi-fi para a sua viagem. É muito útil, prático, e você economiza os dólares que gastaria acessando a internet de algum outro local.

7 – Leve uma carteira de estudante. Em alguns países, principalmente na Europa, uma carteira de estudante ainda te proporciona uma boa economia. Então, não esqueça de levar na sua bagagem uma dessas carteiras internacionais. Elas custam um pouco caro, mas na maioria das vezes, a despesa se paga rapidamente.

8 – Prepare sua comida. Se você se hospedar em um hotel ou albergue que possua uma cozinha à disposição dos hóspedes, não deixe essa oportunidade passar em branco. Cozinhando suas próprias refeições, você economiza bastante e ainda se diverte. Uma visita ao mercado municipal ou feira local é uma ótima forma de se conhecer a cultura popular.

9 – Evite gastos com tarifas. Ao trocar dólares ou cheques de viagem em casas de câmbio você inevitavelmente acaba gastando um pouco com tarifas e com taxas nem sempre favoráveis. Assim, prefira sacar dinheiro com o seu cartão de débito: geralmente sai mais barato. Mas atenção às taxas cobradas pelo seu banco. Somadas ao IOF, podem fazer o saque não valer tanto a pena assim.  E também, sempre que possível compre no cartão de crédito. Mesmo com o IOF, costuma sair mais barato. E você ainda ganha milhas para a próxima viagem.

10 – Dá para beber a água? Tudo bem, isso depende do local por onde se está viajando. Mas é muito comum ver pessoas gastando muito dinheiro com água mineral em locais onde beber água da torneira é possível (e existem muitos lugares assim por aí).



Frase da Semana

“Viajar se torna realmente gratificante quando deixa de significar chegar ao destino e se torna indistinguível da própria vida.”

                                                                 Paul Theroux, em Trem Fantasma para a Estrela do Oriente (2008)



terça-feira, 26 de abril de 2011

Da costa marroquina aos picos nevados do Alto Atlas

Um transporte organizado pelo hotel me levou ao pequeno e deserto aeroporto de Essaouira. O motorista estranhou o destino, já que só saiam vôos de Essaouira duas vezes por semana. E aquele dia não era dia de vôo. No caminho, demos carona para o oficial responsável pelo aeroporto, que aguardava ao largo da estrada. Ele também me questionou sobre o motivo de estarmos indo em direção ao aeroporto, já que o próximo vôo só saía dali a três dias. Expliquei aos dois que estava apenas indo buscar um carro alugado, que guiaria através das Montanhas Atlas até o Deserto do Saara, em seu trecho marroquino.

Após algumas ligeiras formalidades, a chave me foi entregue e logo estava na estrada, tentando me localizar em um grande e detalhado mapa Michellin. As estradas marroquinas eram surpreendentemente boas, com exceção de alguns trechos em obras, o que me permitia avançar em um bom ritmo. 

No trecho inicial, entre Essaouira e Marraquexe, o fluxo de carros era razoável, e as obras atrasavam um pouco o meu avanço. Mas como seria um longo dia na estrada, e estava apenas começando, eu seguia o fluxo tentando aproveitar um pouco da paisagem. Logo após deixar a costa, seguindo o mesmo trajeto que havia feito de ônibus alguns dias atrás, a paisagem se torna árida e plana. Ao fundo, as montanhas ainda estavam longe, demarcando o destino desse primeiro dia na estrada. A monotonia inicial da paisagem foi quebrada com a incrível visão das árvores de Argan, uma espécie endêmica da região sudoeste do Marrocos. Esta árvore produz um fruto pequeno e verde, que é utilizado na produção de óleos. As cabras são particularmente atraídas por esse fruto e, por isso, passaram a viver em cima das árvores, onde se alimentam. Esse fenômeno se tornou uma atração turística, e uma parada para fotos, obrigatória.

Cruzar a cidade de Marraquexe dirigindo não é uma tarefa agradável. O trânsito caótico é agravado pela falta quase absoluta de placas de sinalização. O meu mapa rodoviário não me ajudava em trechos urbanos, e o que seria uma simples travessia, se tornou em um longo suplício, de quase duas horas. Não foi uma boa forma de se despedir desta bela cidade.

Uma hora após deixar o caos urbano, a estrada sempre tão direta começou a serpentear, anunciando que as Montanhas Atlas que avistara ao longe pela manhã, já começavam a ser vencidas. O tráfego começou a rarear, deixando claro que nos afastávamos da região populosa do país, em direção aos povoados berberes das montanhas.

Meu objetivo era chegar à cidade de Ouarzazate ainda durante o dia, já que dirigir no escuro das montanhas não era, evidentemente, uma boa idéia. A distância entre Marraquexe e Ouarzazate é de apenas duzentos quilômetros, mas leva-se cinco horas para atravessar esse trecho. A estrada não é das mais fáceis, com infinitas curvas enquanto subimos e descemos os Atlas. O incrível cenário, porém, fez com que as horas passassem rapidamente, e o sol tocava os picos nevados enquanto eu cruzava as avenidas largas e bem cuidadas de Ouarzazate, histórico ponto de repouso no milenar trajeto entre o deserto e a costa do mediterrâneo africano.    

(Este post é a quarta parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Direto do Lonely Planet... (2)


Viajando (quase) de graça! 

Vinte atrações gratuitas em Londres para você aproveitar essa incrível cidade gastando o mínimo possível. Ou para você, que já não possui muita verba, poder desfrutar sem ter que pedir falência!


Ah, você prefere Nova Iorque? Então clique aqui e veja quarenta atrações que você pode visitar sem gastar um centavo! 

Direto do Lonely Planet...

Europa sobre trilhos: como fazer o seu dinheiro te levar mais longe.


railpass é a melhor forma de economizar em suas viagens de trem pela Europa?



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Essaouira, a Pérola do Atlântico

O ônibus me deixou a alguns metros da entrada da medina, nesta bela cidade costeira do Marrocos. Em pleno inverno, a cidade estava um pouco vazia, apesar da temperatura agradável, em torno dos 15 graus, e do belo dia ensolarado. Logo, algumas senhoras vieram me oferecer acomodação, o que destoava um pouco do que havia observado em Marraquexe, onde apenas dos homens cumpriam essas tarefas. Mas, como já havia providenciado uma reserva, fui caminhando em direção ao hotel Atlas.
No trajeto, fui observando a beleza da costa, com sua longa praia de areias douradas, observada a distancia pela bela fortaleza e pelas muralhas que demarcavam a fronteira entre cidade antiga e as novas construções. O vento soprava forte e constantemente, o que faz desse local um dos melhores do mundo para a prática de windsurfe. As velas coloridas contrastavam com a visão monocromática da medina, compondo um belo cenário para uma caminhada.
Essaouira, também conhecida como “Pérola do Atlântico” e declarada Patrimônio da Humanidade, é uma cidade histórica. O esplendor desta cidade tem origem na Civilização Fenícia. Estes foram logo seguidos pelos romanos, cartagineses, berberes, portugueses e, por fim, pelos franceses. Lá termina o Mediterrâneo e começa o oceano: é a última fortificação com muralhas nas margens atlânticas, cujas casas parecem irmãs das dos "pueblos blancos" da Andaluzia.
Simples, despretensiosa, e bem mais calma que sua irmã em Marraquexe, a minúscula medina de Essaouira é composta por um conjunto de pequenos edifícios pintados de um branco imaculado, pontuados pelo azul-marinho das portadas das janelas. Ruas estreitas e angulosas procuram proteger os moradores dos fortes e constantes ventos alísios vindos do Atlântico, que se entranham no recato dos lares muçulmanos. No cais, a pesca mantém-se quase inalterada há séculos. 

Para um viajante recém-chegado da loucura de Marraquexe, Essaouira era uma bem-vinda brisa de tranqüilidade. Sentado à beira-mar e observando os belos barquinhos azuis, tão característicos da cidade, senti que Essaouira poderia ser a mais agradável parada desta minha jornada. Há algo nas pequenas cidades costeiras que transmitem certa tranqüilidade e a impressão que o mundo gira em um ritmo mais lento. E, naquele momento, era exatamente o que eu precisava para recarregar minhas energias e me preparar para a longa jornada de carro que me levaria através das montanhas Atlas, até o deserto marroquino.


(Esse post é a terceira parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)

Dica de Filme - Gandhi (1982)

Acabei de assistir ao filme Gandhi, de 1982, dirigido por Richard Attenborough e estrelado por Ben Kingsley, no papel-título.
Apesar de não ser um filme propriamente sobre viagens, acho que é super interessante para quem curte história e política, ou para quem se interessa pela Índia e deseja conhecer mais sobre esse incrível país.

O filme retrata a vida de Mahatma Gandhi, o famoso advogado que se tornou o líder da revolta indiana contra o império britânico, por meio da sua filosofia de desobediência civil e resistência não-violenta.

É um excelente filme, vencedor de oito Oscars, incluindo o de melhor filme, diretor, ator e roteiro.  Recomendo a todos!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Marraquexe e uma introdução ao Marrocos


Marraquexe talvez não seja a melhor opção de um viajante para uma introdução ao Marrocos. O labirinto de ruelas da Medina, tomado por uma multidão apressada, por mulas, carroças e uma infinidade de motocicletas provavelmente será um pouco demais para um turista iniciante. E a insistência dos vendedores, que tomam quase todos os espaços, certamente não proporciona um passeio tranqüilo ao final da tarde. Isso sem mencionar os encantadores de serpentes, macacos amestrados, contadores de histórias e outros seres que parecem retirados de um conto de fadas.
 A maioria dos turistas e viajantes, entretanto, inicia seu roteiro com uma visita a mais famosa das cidades marroquinas. Normalmente por uma questão prática: a boa oferta de vôos baratos para a cidade.  No meu caso não foi diferente. E os quatro dias que passei em Marrakesh acabaram servindo para uma abrupta adaptação à realidade berbere. Utilizando o Riad em que estava hospedado como uma espécie de bunker, realizava rápidas saídas pela Medina, sempre retornando ao hotel quando a confusão parecia demais para mim. Assim, fui me acostumando aos poucos a esse cenário tão diferente do que havia encontrado em outros países.
As melhores lembranças que ficaram de Marraquexe certamente foram das noites na Praça Djemaa El-Fna, quando jantamos em algumas das inúmeras barracas que tomam o local após o pôr-do-sol. Os tajines e o couscous sempre eram saborosos e não custavam mais do que três euros. E o suco de laranja estava sempre disponível, por menos do que cinqüenta centavos. Para aproveitar, entretanto, tem que se abstrair de um simples detalhe: higiene. Mas, se isso for um fator importante, então o Marrocos não é o seu lugar...
Além da praça, são as inúmeras lojas que compõem os Souks a outra grande atração do local. Nesses pequenos negócios, insistentes vendedores fazem de tudo para vender uma enorme gama de produtos, de lanternas e luminárias a aparelhos de chá, sandálias, tecidos, e tudo aquilo que faz parte do imaginário ocidental quando se idealiza um mercado marroquino. Mesmo consciente da necessidade de se barganhar muito, uma coisa é certa: você será enganado. A minha rotina marroquina consistia em comprar um item por um valor que considerava baixo, após negociar o preço por mais de quinze minutos, e encontrá-lo na próxima esquina por menos da metade do que tinha acabado de pagar!
Marraquexe tem ainda outras atrações que me mantiveram ocupado nos quatro dias que estive na cidade. Logo chegou o momento de me dirigir à estação para tomar o ônibus que me levaria à cidade de Essaouira, segunda parada desta viagem. Seria um trajeto rápido, de menos de três horas. Saindo pela manhã cedo (após mais uma rodada de negociações com motoristas de taxi), antes do meio dia estava desembarcando.

Sua foto no Lonely Planet


Mais uma dica: se você costuma usar os guias da Lonely Planet, gosta de levá-los em suas viagens e possui alguma foto em que o guia apareça com você ou em algum lugar legal, mande a foto para o e-mail community@lonelyplanet.com, que eles vão publicar no mural da Lonely Planet no Facebook!

Eu já enviei a minha e ela foi publicada hoje! É sempre legal ver uma foto sua por aí, né! Eles demoraram um pouco para publicar, mas hoje recebi o e-mail de confirmação. Então, fica a dica!


Ao lado: cruzando as estradas do Krugger National Park, África do Sul, a bordo de um carro alugado, em março de 2010.

Abaixo: em frente ao Palácio Real, em Fez, Marrocos, janeiro 2011.











Dica de Leitura - No Coração da África


Antes de postar a segunda parte do relato da minha viagem ao Marrocos, trago uma sugestão de leitura para todos aqueles que são apaixonados por livros de viagens e aventuras.
O livro se chama “No Coração da África” e foi escrito por Martin Dugard. Conta a famosa história de David Livingstone, um dos maiores exploradores britânicos, e que foi o primeiro homem a atravessar o continente africano. Durante uma de suas viagens, ele desapareceu. Henry Stanley, um jovem jornalista, embarcou para o Continente Negro com a missão de resgatar o lendário aventureiro.  
A viagem que encantou os ingleses de seu tempo, ainda hoje exerce considerável fascínio. Para contar essa história, o também aventureiro Martin Dugard leu diários não-publicados, fuçou jornais da época e teve acesso a diversos arquivos da Real Sociedade Geográfica Britânica. Dugard visitou, ainda, as savanas africanas e outros locais relacionados às aventuras de Stanley e Livingstone. O resultado mescla pesquisa detalhada ao ritmo de um grande romance de aventura, recriando toda a dificuldade que natureza e homem colocaram no caminho dos dois. O autor enfatiza, ainda, as respostas de Stanley e Livingstone à África - enquanto o primeiro combatia utilizando a força e esperava vencer as adversidades apenas com a sua férrea vontade, Livingstone preferia uma abordagem mais espiritual e enfrentava dureza com paciência e humildade.
No geral, este é um excelente livro, que merece ser lido. Eu li e recomendo!

domingo, 17 de abril de 2011

Chegada à cidade-vermelha

 
 A visão do oceano ocre através da pequena janela do avião que me levou de Lisboa à Marraquexe já era uma prenúncio do que me esperava.  A inconfundível cor do norte da África, com seus diferentes tons e nuances, e ocasionais palmeiras verdes, contrastava com o azul vivo do céu de janeiro.  A expectativa fazia com que esse rápido trajeto de pouco mais de duas horas se transformasse em uma longa jornada. Por fim, pousamos em segurança no pequeno e limpo aeroporto da cidade.

Marraquexe, também conhecida como cidade-vermelha, é a terceira maior metrópole do Marrocos. Está incrustada na base da Cordilheira Atlas, que parece observar a cidade à distância, com suas montanhas nevadas nos convidando para ir adiante.  A coloração marrom-avermelhada que a caracteriza é a primeira impressão de um viajante ao desembarcar no aeroporto de Menara. E ao cruzar as suas largas avenidas, sentado junto à janela do ônibus que me levaria à milenar Praça Djemaa El-Fnaa, esta impressão se confirma e o título de pérola do sul se mostra mais do que justo.
O ônibus me deixou em frente à Mesquita de Koutoubia, com seu magnífico minarete, visível de boa parte do centro histórico, e que passou a funcionar como uma espécie de localizador, nas muitas vezes em que me perdi nas infinitas ruelas da Medina.  De lá, após caminhar poucos metros, estava na famosa praça.  
Djemaa El-Fna é o centro de toda ação e de todo turismo de Marraquexe. Em um primeiro encontro, é impossível não se sentir intimidado pela multidão e pelo aparente caos. Os diferentes sons, as músicas que se misturam e os cheiros mais diversos, confundem um pouco os sentidos, e o viajante de primeira hora inevitavelmente procura recuar e observar à distância. Mas na loucura da praça, isso é quase impossível. Qualquer sinal de dúvida ou indecisão é rapidamente detectado pelas dezenas (ou serão centenas?) de rapazes e senhores que fazem do local seu campo de caça. Logo sou abordado seguidamente com ofertas de ajuda, hospedagem, comida, suco de laranja, tecido, e qualquer outra coisa que possa ser comercializada e que costume atrair a atenção dos milhares de turistas que lotam a praça todos os dias. Acuado, recuso rapidamente qualquer oferta e tento me dirigir ao Riad Andalla, onde me hospedaria nos próximos quatro dias. No meio da confusão, tento recordar o mapa que o pequeno hotel disponibilizava aos seus hóspedes pela internet, mas que eu não havia levado comigo na viagem. O trajeto parecia bem simples, e o Riad ficava a apenas alguns minutos da praça. Porém, na confusão da Medina, bastam alguns passos para um turista desavisado se perder de forma irremediável.
Após três tentativas mal sucedidas, partindo da praça e recuando diante de um beco escuro, ou de um caminho sem saída, comecei a pensar que não seria assim tão simples. A minha mochila denunciava minha situação de recém chegado, e me tornava alvo de uma atenção cada vez maior. Partindo e retornando à praça, olhar confuso buscando alguma placa ou sinal que pudesse ter passado despercebido nas tentativas anteriores, as abordagens se tornavam cada vez mais freqüentes. Por fim, contrariando meus próprios princípios e deixando um pouco de lado meu orgulho de viajante, aceitei a ajuda de um senhor que me guiou por entre ruelas e becos até o meu destino final. Ao alcançar a porta de madeira belamente trabalhada do Riad, tive a certeza que jamais teria avançado até ali sem a ajuda do meu novo amigo marroquino. Em troca de uma moeda de dois euros, pude finalmente relaxar no terraço com vista para a praça, debruçado sobre o mapa da cidade, e antecipando dezessete dias de aventuras no Marrocos.


(Acompanhe nos próximos posts a continuação deste relato. Foram 17 dias nos Marrocos, em janeiro de 2010, visitando diversos lugares, incluindo Marraquexe, Essaouira, Ouarzazate, Merzouga, o deserto e Fez)